O Barbeiro e o Rei

Curitiba, 07 de Setembro de 2012.

Por Mario Kendy Miyasaki

 

Certo dia um sábio rei cansado de ficar enclausurado em seu trono, escravo do seu próprio poder, começou a se questionar. R: “Mas afinal de que adianta tanto poder, tantos servos e todo este temor em minha autoridade e poder? Sei que milhares matariam para ter essa minha posição, mas eu estou cansado, cheguei a uma triste conclusão que eu não sei o que meu povo realmente quer de mim. Afinal se eu perguntar para eles não terão coragem de dizer o que pensam, deste modo nunca saberei !


Então o nobre Rei teve uma feliz ideia. “Já sei ! Disse o rei,  vou me disfarçar-me de plebeu e vou infiltrar-me no meio do povo, irei chegar com vestes simples, montado em uma mula carregada de mantimentos, chegarei como um verdadeiro forasteiro.  Aos meus súditos do reino direi que preciso fazer uma longa viagem de meses e ninguém perceberá meu sumiço por um bom tempo, deste modo aos poucos me aproximo e logo saberei o que o povo pensa a respeito do meu governo.”


Assim o rei fez e conforme planejara tudo deu certo inicialmente. O povo da cidade nem desconfiara do velho forasteiro, com sua macia e aveludada barba branca ele passara no centro da cidade montado em sua mulinha, suas panelas e outros apetrechos pendurados na cela de couraça batucava com um ressoar instigante aos olhares, e enquanto passava pelo centro da cidade os olhares se voltavam à sua leve e lenta cavalgada, não precisavam nem dizer ou muito menos exclamar, mas todos os olhares eram questionadores. Afinal quem é este estranho a chegar? Os comerciantes curiosos saíam de seus mercados e outros estabelecimentos, todos acompanhavam os olhares uns dos outros esperando que fosse parente de um deles, mas todos se enganaram, pois o velho homem passou direto e amarrou sua mulinha no final da rua central, no pensionato da cidade, alugou um quarto dos mais baratos e saiu imediatamente na rua a assuntar.

 

Chegando ao centro da praça o velho homem se vê frente ao busto de sua própria imagem e percebe a infeliz semelhança consigo mesmo, já que as únicas coisas que o diferenciava eram a linda roupa e dezenas de rugas a menos que a estatua tinha. Preocupado que descobrissem sua farsa e que todo o seu plano fosse destruído juntamente com sua ilibada reputação, ele põe-se a andar rapidamente trotando em passos largos até a barbearia, sequer pergunta se tem horário, senta na cadeira e pede ao barbeiro que raspe toda sua barba.

 

O barbeiro espantado com tamanha decisão pergunta novamente. B: “Tem certeza?” Ele com um forte tom de voz responde. F “Não tenho dúvida!”.

Eis que neste momento surge o que ele mais queria, um liame com a sociedade, uma relação justamente com quem sabe mais sobre os problemas e anseio deste povo, entre uma suave navalhada e outra ou forasteiro vai se soltando, e a conversa começa a fluir. O barbeiro por sua vez em uma tarde de terça-feira sem cliente marcado e muito tempo para prosa, logo se acalma de sua pressa e faz esta barba com muita lentidão. Na terceira navalhada o Forasteiro então pergunta: F “Meu amigo esta és uma cidade boa de morar? Digo isso, pois não tenho intenção de voltar tão cedo para minha terra, gostaria de ficar aqui por um tempo, fazer amigos e quem sabe até comercializar alguns objetos, arrumar emprego…”.


Neste momento o barbeiro olha firme em seus olhos e exclama pelo canto da sua boca com um tom irônico. B: “Tudo aqui é fácil, desde que tu não precise do governo, ou melhor dizendo, tudo aqui é super complicado, graças à ajuda do nosso governo.”


Nesta hora o velho forasteiro tem em sua garganta a navalha do barbeiro e arroxeado de medo e vermelho de nervoso, diz: F: “Como assim, como algo pode ser ruim e também bom, como algo pode ser fácil e complicado, me explique melhor, fiquei muito curioso !”


O barbeiro então responde, B: “ Nossa, vejo que não é mesmo daqui meu amigo, vejo que não entende nada de política, muito menos de governo, vejo que és um trabalhador como nós, porém pouco informado. Eu pelo contrário, estou nesta cidade toda minha vida, são 68 anos de muita experiência, já vi três sucessões de reinados, já vi milhares de pessoas amigos e até mesmo inimigos irem e lutarem, e infelizmente os mais amigos sempre vão embora para nunca mais voltarem.”


Enquanto a navalha continua a passar em sua garganta retirando toda a sua volumosa barba o forasteiro com sua voz embargada pergunta, F: “Mas e o rei”? E o governo desta cidade, o que tem feito pelo povo?


Responde o já então colega B: “Bem, eis agora uma prosa boa de ser ter meu amigo, o povo! Afinal quem é este povo? O povo apenas obedece às normas, as regras, as leis, criadas para que tenhamos sempre menos liberdade, menos riquezas e menos direito. O povo sou eu, é você, somos nós. Quando chove muito e algo ruim acontece, como enchente e outras coisas, pode esperar, o imposto irá aumentar, mas quando vem o sol, ele nunca desaparece como a chuva, ele fica para sempre. Sabe aquela chuva de 1889, pois bem, até hoje em tempos modernos o imposto permanece, são décadas de impostos para uma chuva que nunca mais aconteceu, esse imposto foi criado pelo avô do rei atual, mas pensa que é só isso? Estás muito enganado, sabe aquela gripe que assustou a todos, era a tal gripe das galinhas, também teve um imposto que persiste até hoje, depois tivemos a dos porcos e da vaca, lembra-se “a vaca louca”, a sobretaxa na carne foi ideia da rainha,  Só podia ! Graças a este imposto sobre a carne já fazem mais de 30 anos que o povo não come muito bem, afinal mais da metade do preço da nossa alimentação é imposto.”


O forasteiro se contorce na cadeira, suas pernas enrijecidas, seus dentes estão travados de tanto ódio, vendo este barbeiro insultar difamando o seu avô e sua mãe, mesmo assim ele se contém e com os dentes travados pergunta: F: “Fale mais! Porém deste rei atual, o que achas dele? Já com o tom de voz bem mais alto agora.

B: “A palavra meu amigo para esse rei é uma só: Comodismo! O nosso rei atual esta preso à esta força, ela é maior do que sua frágil estrutura. Um rei fraco, sem pulso, sem liderança, cercado de conselheiros conservadores, escravos da luxuria do palácio e dos banquetes diários, idolatras do poder e vaidosos borbulhantes. Afinal o que é um governo? Eu mesmo lhe respondo amigo, governo não é poder, governo não é autoridade, governo é um direito!


Neste exato momento o barbeiro retira o avental do seu cliente forasteiro, abana-o fortemente e diz: B: “Terminei! Era muita barba e muito densa, porém bem cuidada, fui cauteloso, pois vi que tinha em minhas mãos algo de muito valor, mas, no entanto o senhor queria desfazer-se dela”.


O forasteiro retira seu dinheiro do bolso, paga o barbeiro, observa-o em pé por segundos enquanto ele varre toda a sua barba e joga no lixo, e diz. F: “Colega fale sobre o direito, parastes neste ponto, eu não entendi, não sou muito letrado, muito menos domino as palavras como tu, não entendi o que dissestes, Governo é Direito? Como assim?”

O Barbeiro então responde: B: “Meu amigo, fazia tempo que não conversava tão livremente com alguém, afinal a grande maioria dos meus fieis clientes também são cautelosos nas palavras, faz tempo que não encontro um homem com tanta coragem para discutir o poder soberano que paira sobre nós. Mas vamos ao ponto, primeiramente gostaria de dar o meu ponto de vista sobre Governo, o governo não pertence ao rei, ele recebeu de bandeja por ser o primogénito da família, mas um dia pode ter certeza que irá perder este governo, afinal ninguém é eterno. Na verdade a função básica do governo é liderar, isso seria o mesmo que governar e liderança não é a imposição do medo, liderança é convencer o povo daquilo que precisa ser feito, e isso fazemos através do exemplo, se dependermos do mal exemplo que o nosso governante atual esta dando não faremos nada, assim como ele.


Já o direito é algo mais complexo, entendo que ele é o dever-ser, afinal eu não faço tudo que eu quero, e sim o que eu posso, as leis as regras, as normas existem para isso, um bom governo educa sua sociedade para conhecer os seus direitos, assim ao invés da sociedade se limitar, ela rompe barreiras e cresce como tudo ao seu redor. Deste modo entendo que os governantes deveriam apoiar muito mais a nossa sociedade, não apenas criando leis e mais impostos, e sim ensinando esta sociedade a descobrir o seu direito”.


Em resumo direito é algo que me foi dado pelas normas criadas por um governo, na qual eu tenho um dever alternativo para exercê-la.”


O forasteiro agradece e dá um longo abraço no Barbeiro, como se fosse uma despedida de amigos de longa data, o barbeiro encabulado recebe o abraço e devolve. O forasteiro com olhos marejados passa pela porta, dizendo um adeus entristecido ao amigo, junta suas trouxas e volta-se para o reino. O Barbeiro vendo a cena logo pensa.B: “Eu e minha grande boca, acabei de expulsar mais um cliente para sempre da cidade”.


Eis que nos dias seguintes, todos os impostos arbitrários que existiam naquele reino foram extirpados para sempre. O reino era constituído pelos países da Suécia, Dinamarca, Noruega e Finlândia e a partir desta época deu-se inicio a uma nova política pública, ela é reconhecida hoje como o “Estado de bem-estar social”.

Mas isso já é uma outra história.

Mário Kendy Miyasaki. Técnico em contabilidade; Bacharelando em Direito- PUCPR – Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Autor da Obra – Revisão Previdenciária do Mínimo Divisor. Artigos Publicados: Revisão do Mínimo Divisor – Revista de Direito do Trabalho e Previdenciário Nº 38/ Lex Magister; A Sistemática de Cálculo da Aposentadoria por Invalidez após Recente Decisão do STF – Revista Brasileira de Direito Previdenciário – Nº 08 / Lex Magister. Diretor Comercial da Previcalc – Empresa de Cálculos Previdenciários; Calculista Especializado em Direito Previdenciário; Palestrante e Consultor Previdenciário.
  1. admin Responder

    Obrigado !

  2. Paulo Henrique Responder

    Excelente história Dr. Mário, muitos “governantes” poderiam se utilizar disto para de fato tentarem mudar alguma coisa, contrariando o que infelizmente vem acontecendo, com o próprio exemplo do mensalão. Abçs

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